Arquivo da tag: Vizinho

ūüē≠ √öltimo Segunda do m√™s – 22H

Ver√£o,
Arma√ß√£o de B√ļzios,
Típico da estação,
Quente, abafado, sem vento.

Fim de tarde,
Sol se escondendo,
As gringas começam a perambular pelas ruas de pedras.

Suquines,
√Ālcool,
Risos,
Desfile na passarela.

O vizinho abre a janela,
Acende o abajur, liga a chapa,
Mesmo processo de todo dia.

Eu fiquei sentada na calçada admirando o filete de raio solar que desaparecia na água.

Navio partindo pra alto mar,
Eu ali, olhando o mar, à admirar.

A noite chegou, a comida do meu vizinho também, como assim, hoje ele não vai cozinhar?

Nunca vi ele pedindo nada,
Nem pizza,
Nem gelo,
Nem bananada.

Curiosa fiquei; entrei.

Aumentei o som,
Acendi as luzes,
Sentei na varanda,
Fui fazer as contas do dia.

Calculadora interrompida,
Uma bandeja na m√£o,
A coqueteleira na outra.

“- Janta comigo?”

Cuma?

O vizinho fechou a janela,
Atravessou a rua!?

Acho que peguei muito sol,
Mergulhei na praia errada,
N√£o estou na Azeda?!

Socorro.

Dois copos no balc√£o,
Caipirinha de kiwi,
Comida japonesa,
Nem tentei dizer n√£o.

Ele trancou a porta,
Mudou minha m√ļsica,
Apagou o excesso de luz,
Pegou o viol√£o.

Noite,
Um silêncio,
Alguns olhares.

Outra dose de caipirinha?

Invadiu minha cozinha,
Lim√£o, gelo, gim, hortel√£,
N√£o sei explicar o gosto,
Não curto álcool, estou bêbada?

N√£o, sim; n√£o estou!

A sobriedade me fez conhecer seu cheiro, seu perfume, seu tato.

E a caipirinha mandou ele ir embora, sem nem pergurtar seu nome.

Gratid√£o pelo jantar!

Tipo queijo minas, como dizia o Cacau.

Um magrelo,
Alto,
Madeixas mediadas,
Barba por fazer.

Um amante da cozinha vegana,
Bons vinhos,
√ďtimo gosto musical.

Mas, hoje é miércoles, ele nunca aparece nas noites de miércoles, embora seja uma noite cheia na sua casa.

Na sala, sua m√£e assisti uma partida de futebol, acompanhada de muitos amigos.

Na sua cozinha tem uma guria perdida, enrolada com a chapa, e com o p√£o.

A guria fechou as janelas!

Quase oito horas.

Abajur aceso,
Janela aberta,
A Elis est√° tocando na sala,
E, eu estou com fome.

Hoje n√£o teve janta!

O vizinho ficou na janela,
Olhando a rua,
Olhando as meninas,
Falou com os vizinhos.

Arrumou a cozinha,
Reagrupou os temperos.

Me descobriu do outro lado da rua…

Olhou e sorriu com o ar de quem diz:

“se precisar de uma x√≠cara de caf√©”,

e retornou as suas tarefas.

Parecia alegre e entediado ao mesmo tempo, ou talvez fosse eu que estivesse assim, mas, a noite se foi.

Sua casa estava vazia, seus pensamentos provavelmente n√£o, e n√£o me dei conta de quando ele fechou a janela.

O vizinho chegou mais cedo,
Com pressa,
Na agitação da noite de sábado.

Um menu r√°pido, nem deu tempo ver todos os ingredientes.

Um pão sírio,
Muito verde,
Muito,
Muito mesmo,
Muito de tudo que ele p√īde encontrar na geladeira.

Aquilo tudo, virou três megas sandubas, com tudo dentro!

Ele e seus companheiros devoramcalmamente cada mordida do preparo, um suco rosado ajudou a ingerir, e ao som de um eletro forte, eles permaneceram por ali discutindo os assuntos masculinos.

E, eu fiquei na varanda ouvindo tudo em alto e bom tom.

Como se não bastasse ser seduzida por aquela piscina, a chegada da noite é bem mais convincente que as tardes, talvez seja o ar mais fresco, ou, o clima mais ameno.

Todos as noites s√£o iguais…

Uma luz se acende na sala, vejo, observo:

Taças,
Algumas louças bonitas,
Muitos vinhos e outras bebidas,
√Č o bar.

Do outro lado, uma pequena cortina se abre e reluz as sombras reproduzidas pelo abajur retr√ī; parece ser feito em ferro fundido, coberto com renda antiga.

Ao lado, uma suqueira amarela,
Copos coloridos,
Um fog√£o,
Uma chapa,
Uma mesa enorme,
Duas cadeiras,
As paredes vermelhas…

Eu apresento para vocês: A cozinha do vizinho.

‚Äď Que cozinha fofa! Pensei quietinha.

Tomatos,
Piment√Ķes,
Folhas verdes que n√£o consegui identificar,
Uma imensid√£o de condimentos,
E o olhar cada vez mais fixo no preparo do jantar.

Enche um jarro com água, eis que uma flor abóbora surge no balcão…

‚Äď Deve aparecer algu√©m para o jantar.

(Tudo tão, tão…)

Daqui n√£o dar para sentir o aroma,
N√£o dar para saber qual ser√° o card√°pio,
Mas, posso para garantir que é saboroso.

Ele flambou alguma coisa com conhaque (parece ser), e isso me abriu o apetite.

Daqui tamb√©m dar para saber que a mesa est√° posta e a √ļnica coisa que invadiu aquela cozinha foi o som do Skatalites e uma bela ta√ßa de vinho tinto.

‚Äď Ele cozinha ouvindo Ska?!

(Que tentação, meu pai!)

Noite iniciada, e nada.

Se fosse tempo de se apaixonar, certamente apaixonaria-me pelo vizinho.

√Č, o vizinho.

Aquele que invade as manhãs regando as plantas e limpando sua exuberante piscina, essa, por sua vez extensa, limpinha, que acompanha uma espreguiçadeira que mais parece uma cama, com um toldo de palha e a solidão de nunca ter ninguém por lá, ou, em raríssimas vezes, por sua Mama, dourando sua pele branca, já gastada do sol.

Ah piscininha, que delícia, renderia-me silenciosamente em sua água e tu nunca mais seria solitária e sozinha.

РMas, cadê o vizinho?

Hoje não apareceu para o café, não apareceu para o almoço, nem para o joguinho da tarde.

Est√° atrasado para o jantar!