Casuarinando…

Estações – Em vertigens.

Casuarinas – @temflor

Outono.

Tardes embaraçadas, pinta as nubladas nuvens… tons lilás, verdes, rosas, azuis… Rabisca o olhar ocre, fixo, incansável… um falcão a nos olhar. A coruja, companheira.

As folhas, de par em par, desgrudam dos galhos, não caem, balançam. Não é montanha, mas do alto da casuarina, posso enxergar, ver, e até, sentir o ar. E falta o ar!

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parede

Desfazendo a parede, arrumando malas. Um quadro a menos, dez cúmplices no lixo.

Foram centenas de fotografias, três toneladas de roupas inúteis, outro quarto de pensamentos, pessoas, outrora conhecidas.

Madrugadas longas, e a casa fica mais vazia. O eco aumenta, o ouvir não cessa, a sensação, confirma.

As paredes estão frias, não consegue dormir. Ora aquece na febre, ora congela no edredom.

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tua letra na minha pele

Se houvesse espaço, e o pincel estivesse nas tuas mãos, o que a poesia escreveria na alma?

Garatujas, versículos, cartas escritas, descritas, receitas pormenorizadas, romantizadas…

Haveria uma carta?

@temflor

Escreveria uma, mesmo que não fosse uma carta de amor, e sim, uma carta, da existência, da resistência, da história, das outras vidas, da nobreza, ou da sua dor.

Traduziria a letra, o idioma, as palavras silenciadas, os versos faltantes.

Nem precisaria lupa, só café, dicionário técnico e aroma de sândalo.

Te escreveria uma carta com amor, se houvesse coração suficiente para preencher as linhas do espírito, do amor, mas eu, queimaria essa mesma carta.

Eu não reescreveria essa carta.

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Saca o print do sorriso.

@temflor


Estou descalça
Pureza na água
Mãos lavada na terra
Desnudando a consciência

Amanheci bem cedo
Seiva encharcada
Não choveu, serenou
Loba uivou, galo cantou

Luz da manhã
Leveza na pele
Sentimentos de papel
Coração inundado

Minha luz, hora gris
Perdi as galochas
Perdi o café, a rima
Desacreditei do amor

Senti o sabor do ser
O azedo dos passos
Gosto insosso, indissolúvel
Suco modificado, doce

Repousa a experiência
Matura o eco anterior
Desfaz o ego
Ama!

Molda o rosto que sai na rua
Limpa a maquiagem
Saca o print do sorriso
Cria uma palavra de ternura

Cria um quadro pra pintar
Desenha outro pra apaixonar
Inventa as cores, os sabores
Coloca meu desejo na rima

Laranja, azul, lilás, vermelho
Estou branca, transparente
Sumindo nos manguezais
Morando nas malocas

Trocando poesia com urubus
Pintando o corpo de lama
Dando nomes à caranguejos
Alimentando a boca com vontades salgadas

| íris |

Luz que adentrou o olhar.

É o sol dessa manhã silenciosa, que invade a cama, esquenta a nudez jogada sobre lençóis frios e úmidos.

Sinto o arder da pele, estou gelada, aos poucos, dia após dia, vou congelando.

Seis horas, água no fogo, incenso aceso, rio fluindo, som dos pássaros, da cachoeira, café pronto.

No rádio, o jornal diz que a noite foi a mais fria, mas, no termômetro, o coração permanece aquecido, não, vou esfriar.

Banhar-me-ei nessas águas frias do inverno.

@temflor

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~ gira, mais uma vez o sol.

Temperaturas, duetos com chá, brinde com Bourbon e salmão.

Medicina oriental, as mãos sobre a pele, turva visão, erupção mental, inspiração, desejos.

Seu olhar, minha febre silenciosa.

A paisagem azul do Gogh, o meu estrabismo, é a paisagem natural da realidade.

Girassóis murchos no vaso seco, sem água, sem luz, sem vida.

É um dos quadros mais famosos do mundo, são nove flores reluzentes, falecidas em uma paisagem sarcástica pela pessoa depressiva, da qual o Van foi.

É a liberdade saindo da cama dele, é o amor em tons pastéis, com faces de medo, temor ou busca.

O que buscava Van Gogh?

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Coral ou Laranja?

Não sei bem ao certo. Laranja, é comida, certo?!

A intrusa nas rosas cor rosa

Tenho dificuldades de esclarecer algumas cores da paleta.

Não sou burra, nem confusa. E não me condeno por isso, tão pouco fico questionando as cores com-de outras pessoas.

Entendo, na percepção, no olhar, na visão, estou certa, e tu também, apenas não enxergamos da mesma forma, com a mesma luz e sombras.

Estudos comprovam essas contradições, mas tanto faz, não ligo para as pesquisas científicas.

O que vejo de interessante nesta contrariedade é como podemos aprender com as diferentes percepções que temos sobre a vida, sobre o mundo.

Uma imensurável grandeza que Deus nos deu.

Deus nos fez seres semelhantes, mas, únicos, incomparáveis, nos detalhes.

Observo os hermanos. Pessoas lindas, cheios de talentos, criativos, e frustrados, deprimidos, todos como eu, sobreviventes.

Vejo alguns, quase mortos, cansados, ansiosos, decepcionados e exaustos. E mesmo assim, continuam todos comparando-se aos padrões suicidas do mundo, porém, continuam.

Continuar é preciso.

Quanto mais querem adequar-se, menos vejo o brilho sincero dos seus sorrisos.

Já não vejo sorrisos nos olhos, nos pés, nas mãos.

Só vejo seus corpos sagrados transformando-se em números e máquinas.

Sinto saudades de seres que ainda não conheci.

Paleta

Estou pensando em aquarelas, tantas cores possíveis.

Pinto o sol, o mar, desenho uma onda, uma prancha, já tenho o surf.

Pinto umas árvores, e já colho maçãs.

Tá chovendo, violo os pensamentos, e adentro em uma linda cachoeira.

Olha, meu Arco-íris pintado com os dedos.

Olha, veja as borboletas saindo do casulo, uma borboleta azul ciano, num voo perfeito e alto.

Ela admira lindas flores corais, e em um abacateiro, descansa em paz.

E em paz, desfruto laranja com limões, saboreio uns morangos e desejo um sorvete de amoras com brigadeiro.

É fim. Não só da tarde.

Desenho amarelinhas no chão de giz.

Passarinhos cantam, anunciando que estão de volta ao ninho.

Um chá das cinco, de canela, por favorzinho!

Do lado sul, tranço umas linhas, corto umas rendas, junto umas flores e crio uma linda tiara.

Do lado norte, aquele vento, anuncia a tempestade, mas, continuo exagerando nas opções de cores.

Em, 2014.