Arquivo da tag: febre

| retrô |

Outono,
O vento soprou forte,
Alguns tapas de areia,
Uma gota, duas gotas arrancadas dos olhos, uma fogueira fria.

Os cabelos esforçaram-se para permanecerem dentro das curvas do trançado. [Quase cortei, mas…]

Os lábios secos e ressecados, abriram-se, como a terra árida do sertão, o gosto do sangue é inevitável, sua boca também, mas, você não vem.

A consciência trava as palavras, um sussurro abafado ecoa em meio ao vento. A voz, o sorriso, o olhar, as pegadas sumindo, o barulho, o pulsar. Continuar lendo | retrô |

|de fome minha vida não morre|

Minhas ânsias aumentaram, quase toda madrugada meu esôfago me acorda, e meus olhos ainda tontos de sono despertam junto com a dor.

São quatro horas da madrugada, não tem vento, o céu está completamente estrelado, ouço as corujas, o grilo e meu corpo, gritam, minha febre volta novamente.

“Não faço questão”, o que estou fazendo então?

Limpo meu corpo com água corrente, são cinco horas, vou dormir, mas, agora não sei se tenho fome, ou se tenho tempo.

Meu chá de maçã, acalma, agora estou bem, mas meus pensamentos invadem seus lábios, como tudo isso começou?

| febre |

Garganta seca, boca ressecada, lábios rachados, sede…

Suor frio, pele avermelhada, nariz irritado, corpo gelado e a alma molhada.

Duas blusas encharcadas, mãos trêmulas, banho frio, choque?

– Uma taça com água pra fresca! Natural, sem gás, sem limão, sem gelo!

Um copo d’água, duas garrafas d’água, um galão inteiro de água, estou afogando, observando minha ilusão sobre a mesa.

Que sentir estranho!

De volta a realidade, uma pequena análise do platonismo;
De volta aos meus pensamentos, um paroxismo dos meus desejos;
De volta ao termômetro, fazendo paisagens sem que ele saiba.

Regurgitando o Sentir, porque como disse o Pessoa: “nada tem importância”.

Será?!

~ fluidez!

Não estou fluindo, nem nutrindo,
Só estou rindo, sorrindo.
Gargalhadas de medos, desejos, pesadelos, esse tem sido o enredo.

Madrugadas frias, imagens sutis.

Durmo tarde, acordo no meio do sono, Sonho quase todos os dias,
Quase todo sonho é vazio, sozinho, sombrio.

Acordo cedo, canto com o galo,
A alma está de ressaca,
Estou bebendo mais água,
Mais água, mais água, mais água, mais, mais…

Estou com o peso das noites,
Peso dos pesadelos, peso da agonia,
Peso do corpo cheio.

Algo precisa fluir, nutrir os sonhos,
Decifrar o que vejo,
Explicar sentimentos, experiências,

Dizer como eu percebo.

Despertar…

De gole em gole, estou preenchendo os espaços vazios,
Mas, o vazio é sempre cheio…
De copo em copo o que é ruim vai sair.

Com mais sede, eu afogo intentos que não são meus…
Eu sufoco os negativos.
Eu assassino mentiras, e destruo algumas “verdades”.

E cheia suficiente, posso esvaziar tudo,
Consigo expelir tudo que agrediu meu ser,
Nadar nos meus sentimentos e nadar sozinha com minha alma,

Pois ela, ainda que triste, é fluidez!

~ vazio.

Este texto devia conter palavras bonitas, contagiantes, ou efêmeras, mas eu acordei no vazio.
Por um momento não soube descrever o vazio, tão pouco compreender o meu.

  1. vazio
    1. que não contém nada (ou contém apenas ar) ou quase nada. “copo v.”
  2. 2. em que não há ou há poucos ocupantes ou frequentadores. “um cinema v.”

São quatro horas de uma madrugada, úmida, quente e fria. Tento entender como meu corpo permanece gelado, suado e a cabeça quente, queimando, doendo.

Sinto frio, calor e dor no corpo. É possível que eu esteja doente.

Verifico minha temperatura corporal, trinta e nove graus, estou suando. Afiro minha pressão arterial, oitenta diastólica, e sessenta da sistólica. Meu estômago grita comigo, e abre um abismo, incendiando tudo, empurrando-me para baixo.

Nem todo incêndio se apaga com água, eu tento, mas minhas mãos não conseguem equilibrar a garrafa, estou tremendo. Devo pedir ajuda?

Desmaiei. Acordei com o burburinho dos pássaros e jogada num mar de água. Mergulhei em alguma piscina?
Não.

Meu corpo combateu a febre
Minha garrafa caiu das mãos
Meu coração despertou com os pássaros
Acordei no vazio da minha alma.

Não consigo silenciar minha mente, não consigo descrever o que estou sentindo, não consigo escrever o que tenho.
Quero pular no abismo, sair do vazio, quero silenciar todo esse barulho que não me deixa descansar… Não consigo dizer sobre eles.

Eu não sei… mas, percebo.

Embora seja vazio, contém muito.
Há ocupantes, frequentadores!
Como pode ser um vazio?

[Madrugada, 15.04.2017 – A lua era rosa; as lágrimas eram secas, inaudíveis.]

Obs.: Acabo de escrever – reescrever este texto com a certeza de que anjos existem.

Vestido de osso e pele, e com um coração lindo. Admirável és tu. Grata por nosso papo terapêutico familiar.