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|Uma noite em Santana |

Como o trem das onze que não veio, nós dois no telhado olhando a terra girar.

Sinto falta do chá feito pra nós…

Daqui, mudei as ervas, os comprimidos, os banhos, os ouvidos, as escritas. Os incômodos, agora falam comigo, e os pesadelos, são meus velhos conhecidos.

Eu adormeço em Santana,
E tu amanhece em meus braços.

Pego-te, cheiro-te e recolho minha significância, como a flor do jardim que não existe.

O olhar sereno e forte, seu brilho ilumina o dia.

É o ser consciente, delicado e totalmente bruto. É contraditório, eu sei. Mas, tudo que nos envolve é. Ainda que envolvimento não há.

Sua história, sua jornada, sua trajetória, nada mais será tão ignoto, quanto suas próprias escolhas.

E não sei por quanto tempo posso te sentir em meu ser.
Eu não tenho dormido, automaticamente, não consigo te trazer para os sonhos. Sua presença, embora aqui, passeia em pensamentos oscilantes.

Estou à tomar o café da manhã que não bebemos…

Lendo as cartas que não escrevo, relendo os sonhos de luz e medo, dos lugares onde nunca estive, mas, sempre vivi.

Os pássaros continuam estacionados nas rochas, como quem grita o preço da nossa liberdade…

Amor, tu és livre! Libre!

Nas areias de Santana, despir-me das vestes que ainda nos cobriam de desesperança e desconsolo.

Nua, mergulhei mais uma vez, sobre o mesmo penhasco; um oceano só meu.
Uma montanha para blindarmos o pôr do sol, e despedir-se dessa consciência.

Agora, estou observando as palavras da janela, do lado direito do avião que nunca peguei. Desse lado, escrevo o poema que nunca vou enviar. Do outro, saio novamente do aeroporto, e escrevo a poesia que ninguém vai saber.

É um vai, sem volta, e um foi que nunca mais venho!

Tô cansada…
E cansei de falar contigo,
Tu cresceste tanto que mal cabe em seu recinto.

[Tenho falado tanto contigo, que quem vê, acha que estou a falar sozinha. É estranho falar com as plantas, pior é que de tanto silêncio, agora, pareço ouvi-las.]

~ vou te guardar nas entrelinhas.

Cansei desta monotonia, do vazio das minhas letras, do grito da minha alma, do silêncio das minhas palavras.

Cansei das minhas lágrimas vazias, dos meus olhos encharcados por dores que realmente não são minhas.

Cansei da ausência, cansei dessa saudade, cansei de ser presença, cansei de ser.

Cansei do silêncio da filosofia, cansei das propostas vazias, cansei do quadro, e da fotografia.

Cansei do perfume barato, do disco furado, do romance esquecido, do café aguado.

Cansei do espelho, do corpo, dos meus óculos embaçados.

Cansei dos sonhos esquecidos, do medo, dos pesadelos, cansei de chorar no chuveiro, de me doar por inteiro.

Cansei das vozes, cansei do mundo, cansei de mim. Mas, nós precisamos seguir, né?!

Então, vamos lá, porque as nuvens molharam os olhos, a pele, rasgou o sorriso, mudou a cor do olhar, mudou a voz, a reação e alterou a graça.

Bora lá encontrar a Lua Nova nas nuvens desse céu cinza.

Se cuida!

* Lua Nova!

Estranho, vazio, superficial.

Saudades de quando eu queria fazer qualquer coisa, até ir na esquina.

Saudades de quando eu sentia falta de sexo, de café, de respirar gente nova, de vida fluindo…

De quando eu me imaginava em outro lugar, com as mesmas pessoas ou com pessoas que nunca vi.

Sinto falta de como eu era alegre quando ajudava alguém.

Eu costumava ser feliz, e mesmo sozinha, eu ria, eu era alguém amável e carinhosa.

Meu humor hoje está insuportável. Impregnado de mágoas, de solidões incuráveis a curto prazo.

Afogada nas ansiedades que eu mesmo crio, (eu crio?) nas infinitas decepções. Chega!

Estou imóvel, e continuo paralisada concretando meus pés.

Sinto falta de sua presença em meus sonhos.

[Não te sinto mais menino.]

Perdão.

| Gabriele |

Hoje (em 29 de janeiro de 2017) uma menina de quinze anos tentou o suicídio.

[Quinze anos, uma bela menina, preta linda, carinhosa, estudiosa e muito zelosa…]

Quando a tia relatou o que havia acontecido, tinha presente outras duas pessoas próximas. A primeira pessoa, sem pensar, já foi julgando os motivos que ainda nem haviam sido revelados.

” – Nessa idade é assim mesmo… Quer tirar a vida por tudo, namoradinho, zombarias dos colegas… Deviam arrumar um trabalho, lavar uma louça, procurar uma responsabilidade…”

Meu estômago revirou, e todas as minhas borboletas acordaram pra jorrar na cara daquele homem todos os motivos que poderiam facilmente levar alguém, inclusive ele, a projetar a própria morte, mas antes que eu o fizesse, a outra pessoa que estava presente advertiu o homem:

” – Desculpas, mas o senhor está enganado. Meu filho é um homem muito responsável, sempre teve boa conduta e ocupação. É um homem bem sucedido, já é formado, e continua estudando, é trabalhador, tem uma família próspera em todos os sentidos, e mesmo assim, um dia ele desmoronou, tentou o suicídio e quase morreu. Hoje ele faz acompanhamento psiquiátrico. Infelizmente a depressão é para todos. Não existe classe, idade ou raça. É uma doença tão cruel, quanto um câncer. Talvez até pior, por ser mais calado. Quando o gatilho é acionado, muitas vezes ele já levou a vida dos teus entes queridos. Depressão existe meu senhor. E não é ociosidade e preguiça não.”

Bom, aquelas palavras fizeram o homem calar por alguns minutos, dando a oportunidade da tia da menina desabafar. Continuar lendo | Gabriele |