Não é o meu turno, meu trem é das 12h, são seis da manhã e perdi o trem da terça.

O trem parou, que arredio!

Quase caio – o jovem segurou-me – gratidão – não tenho certeza se o som da minha voz saiu ou se o disse na mente ou no gesto.

Parados, uns de frente, uns de costas, uns sufocados – andar de trem é uma loucura – saudades de nenhuma loucura que sufoca a gente – não sei. Mas estamos estacionados, e estamos em frente a catedral – ele mirou como quem indagou algo – eu falei como quem quer ser ouvida:

  • o que achas dessa oração?

Dois minutos parados – o trem volta a trilhar.

Ele fechou o livro como se ali eu já não estivesse – e eu não estava, imergi na leitura dele – eu sei, sou uma estranha no trem lendo um livro alheio – me julguem! – mas no trem, nesta alvorada, as seis da terça, somos íntimos de pessoas que nunca vimos – posso dizer o que tem na bolsa da moça, as conversas do chefão de blazer azul e gravata colorida, a comida do rapaz ao lado, a música do estudante, sim, é uma intimidação andar de trem em algumas cidades, mas hoje tem uma oração diante dos olhos e eu estou interessada naquele contexto.

Por fim, minha estação.

O portal da saída é do outro lado – tenho que atravessar um mar de gente – mar de gente as seis da terça; meu trem é o das doze, meu trem é as doze – seis horas, perdi o trem, e esse é o parador das seis e vinte.

  • bom dia, obrigada.

» – é o salmo mais bonito. E esse não é o seu trem.»