Publicado en Poetas, Sociedade

Musa impassível

Musa Impassível – poema, escultura, filme.

O poema

MUSA IMPASSÍVEL I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

MUSA IMPASSÍVEL II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

A Escultura

Musa impassível é o nome dado a uma estátua-homenagem à Francisca Júlia, esculpida entre 1921 – 1923, feita em granito carrara, pelo Mestre Modernista Victor Brecheret, na época, ainda um jovem escultor, brasileiro, migrado da Itália.

Convidado com a missão de esculpir um mausoléu em homenagem a poetisa, inspirou-se no poema “Musa Impassível”, publicado no primeiro livro, Mármores, de Francisca Júlia, em 1895.

“O resultado foi uma escultura envolvida por sensualidade. Olhos fechados que remetem a querer esquecer a dor da morte. Seios grandes e fartos para afirmar a importância da mulher na sociedade. Dedos e braços longos e delicados simbolizando a força e a superioridade de uma mulher que abriu segmento na literatura feminina. Nascia a Musa impassível”

Palavras de Janara Lopes, no site IdeaFixa.

Na primeira imagem, vemos a escultura no mausoléu de Francisca Júlia, ainda no Cemitério do Araçá – SP. Em 2006, a escultura que pesa cerca de três toneladas e tem quase três metros de altura, foi levada para a Pinacoteca de São Paulo, passando por reformas, e atualmente encontra-se em exposição no museu, como observa-se na imagem abaixo.

“Na augusta expressão dos seus olhos, do seu busto erecto, das suas mãos ritmicas, há toda a grandeza e a beleza daquela musa impassível da formidável parnasiana que concebeu e realizou a “Dança das Centauras”.”

Trecho do discursso de Victor Brecheret na apresentação da escultura em 1923.

O filme

Conta a história de Adrine, que é neta de armênios, e de Edivaldo, filho de pernambucanos. Ela tem TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e aspira à imobilidade. Ele tem ausências que o paralisam completamente. Adrine é casada com Adilson, um homem embrutecido que não suporta ser tocado pela mulher. Edivaldo quer casar-se com Gladis, improvável aspirante ao mundo fashion. Adrine deseja não ser notada. Edivaldo precisa “ser alguém” para reconquistar sua noiva. Numa manhã, as vidas de Edivaldo e Adrine se cruzam na região da Luz por causa de uma laranja quase madura. Entre monumentos históricos, esculturas, pessoas de origens e sonhos diversos, Edivaldo e Adrine compartilham uma jornada de reconhecimento e aceitação sem imaginar que o que vivem, na verdade, é a mais antiga e necessária das histórias: uma história de amor.

“Uma nuvem pequena pode encobrir o sol.”

Na imagem acima, uma cena do filme, em que Edivaldo encontra Adrine, no momento em que ela decide atravessar o trem e o início do novo caminho, agora juntos.

O filme é antigo, lançado em 2011. Não sei dizer como a crítica recebeu o média-metragem, se houve grandes premiações ou outros. Em meio as histórias das buscas dramáticas, o filme, chama atenção (ou deveria) para o TOC, doença que acomete mais de 3% da população.

Mais da metade dos casos, cerca de 65% são causados por condições genéticas, e, mesmo assim, é talvez, uma das condição psiquiátricas mais “ignoradas” pela sociedade, por nós. E não é a única condição ignorada, sabemos. Depressão e ansiedade, por exemplo, embora, sejam faladas em redes sociais, escolas e hospitais, ainda são encaradas como doenças do século, “modinha”, “pitis”, “falta de amor”, “falta de deus”, infelizmente são banalizadas e mal amparadas, administradas pela sociedade, como um todo.

*Se leu algo e acha não estar bem. Procure ajuda. Converse com alguém de sua confiança. No Centro de Valorização da Vida, você pode conversar com alguém a qualquer momento, ligue 188. Um desânimo, ou tristeza desproporcional, pensamentos desconexos ou progressivos, compras compulsivas, irritabilidades, podem atrapalhar a vida pessoal e social, e saiba, tem ajuda. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (S.U.S.) oferece tratamento psiquiátrico e psicológico. Existem outros órgãos conveniados que oferecem variadas formas de tratamento, como terapias alternativas.

Em 2009, foi instituída, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro, a “Campanha Estadual de Prevenção e Conscientização do Transtorno Obsessivo Compulsivo – T.O.C”, a ser realizada anualmente na primeira semana do mês de Abril.

Quem foi Francisca Júlia?

Poetisa, professora primária, pianista, escritora parnasiana, crítica literária e esposa. Francisca Júlia da Silva Munster nasceu em 31 de agosto de 1871, em Eldorado, no Vale do Ribeira, e mudou-se com a família, para São Paulo.

Escreveu sonetos para o jornal O Estado de S.Paulo, Correio Paulistano e para o Diário Popular e outros periódicos. Em 1895, publicou seu primeiro livro, Mármores, teve boa recepção da crítica, mas também sofreu acusações de imitação de poesias do cubano José María de Heredia.

Apesar dos traços simbolistas em algumas de suas poesias, Francisca Júlia é considerada uma poetisa do parnasianismo brasileiro. A autora publicou também Livro da infância (1899), Esfinges (1903) e Alma infantil (1912), seu último livro, em parceria com o irmão Júlio César da Silva.

Em 1907, Francisca recebe convite para a Academia Paulista de Letras, mas a autora rejeitou o convite, por não acreditar em academias. Época em passa a estudar questões místicas e metafísicas, explorando temas como caridade, fé, vida após a morte, reencarnação e ideologias budistas.

Em 1908, realizou em Itu a palestra intitulada “A feitiçaria sob o ponto de vista científico”, quando discorreu sobre Pascal, bem como sobre o Plano Astral e o Corpo Astral, com detalhes referentes à separação do Corpo Físico. Logo depois, ficou doente, devido à intoxicação por ácido úrico, que lhe provocava alucinações, levando Francisca Júlia a acreditar, no início, que estava se tornando médium.

Em 1909, casou-se com o telegrafista, Filadelfo Edmundo Munster. Sendo o padrinho de seu casamento o poeta e amigo Vicente de Carvalho, mais anos mais tarde, descobre a doença do marido (tuberculose) e mergulha em profunda tristeza, isolando-se, recebendo visitas esporádicas de jornalistas que ainda publicam poesias suas. Com o passar dos anos a situação se agrava, suas poesias – as poucas que ainda escreve – retratam a vontade de uma mulher que almeja a paz espiritual fora do plano. Diz, em entrevista, que sua “vida encurta-se hora a hora”. Mesmo assim volta a escrever para A cigarra e promete um livro de poesias chamado Versos áureos.

Em novembro de 1920, seu marido falece. Horas após, Francisca Júlia é encontrada morta no quarto do marido, supostamente por ter ingerido grande quantidade de narcóticos. Francisca tinha 49 anos, seu desencarne data primeiro de novembro 1920. Amigos relatam que ela havia declarado que “jamais poria o véu de viúva”.

Em 1920, no enterro de “Chiquinha”, como era chamada por seu esposo, alguns dos futuros revolucionários da Semana da Arte Moderna, como o querido Oswald de Andrade, entre outros, que estiveram presente, decidiram homenageá-la com um mausoléu. Solicitaram ao governador do Estado de São Paulo, Washington Luís, que fosse feita uma homenagem à artista, assim, o vanguardista Victor Brecheret criou a bela escultura da Musa impassível.

Apesar da mediunidade questionada por causa das doenças, em 1955, Francisca Júlia, apresenta-se em uma sessão, após atravessar aflitas provações à morte do corpo físico, dedicando-se ao combate ao suicídio e renunciou um soneto intitulado “Lutai“, registrado no livro, Vozes do Grande Além, por Chico Xavier e Arnaldo Rocha. E em 1973, foi inaugurado em Porto Alegre o Núcleo Espírita Francisca Júlia, e o Centro de Valorização da Vida, também foi inspirado por ela.

Seria o belo soneto “Lutai”, os Versos Áureos de Francisca Júlia?

Fontes: Planalto.gov |Vozes do Grande Além | Jornal Cruzeiro do Sul | CVV |São Paulo Antiga

Imagens: Pinterest

Autor:

🌱 Apreciadora de cafés e doces. De poesias, músicas, fotografias, esculturas, artesanatos, pinturas, cores, desenhos, garatujas... Aprecio culturas e artes... flores, passarinhos, plantas, insetos exóticos, peixes, águas. Comungando num rito harmonioso e encantado com a botânica e com as belezas naturais...

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